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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Pequenas histórias #7


Raras são as vezes em que o meu coração acelera tanto que mal me deixa respirar; quero-te tanto (mas tanto) que imaginar que podes não acontecer me vai matando aos bocadinhos. Repito – mil vezes – para mim que vai chegar o teu dia e que vais aparecer, mais do que perfeito, para que toda a gente te veja; então, vão saber que és real. Real como todo o trabalho (e dedicação) que tive para que ganhasses vida; real como só eu sei que és – acredito que um dia (todos) os outros te darão o mesmo valor que eu.
Recordo-me das vezes em que, eu própria, não te dei o devido valor e te deixei esquecido; acredito que depois de tudo o que passámos nos últimos tempos tenhas conseguido entender os meus motivos e perdoar-me. Respostas tuas nunca terei, pelo menos não directamente, mas quando toda a gente te conhecer (quase tão bem como eu) receberei todas as repostas que sempre precisei e talvez não me restem dúvidas do caminho que escolhi.
Raramente tenho certezas absolutas, ou não tivesses tu aparecido dessa ausência; não existe nada mais delicioso do que um mar de dúvidas para me perder (encontrar). 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Pequenas histórias #6


«Um casal desaparece sem deixar rasto»
Era o título principal de um dos muitos jornais que nunca costumo ler. Estranhamente, nesse dia, decidi passar pela banca de jornais antes de ir tomar café; mal olhei para aquele título não consegui evitar um ataque de curiosidade. Comprei o jornal e segui para o café, onde pretendia ler aquela notícia de uma ponta à outra.
O casal tinha desaparecido sem deixar rasto – num momento estavam em casa a jantar e no momento seguinte já ninguém sabia deles. Arrepiei-me quando pensei nesta certeza de imprevisibilidade que paira sobre nós a cada segundo que passa. Quando voltei à notícia, fiquei a saber que o casal de desaparecidos estava em casa a jantar – segundo amigos do casal – quando deixou de atender o telemóvel e de responder ao toque da campainha do prédio. Segundo esses amigos, o casal festejava um aniversário e tinha-os convidado para aparecerem depois de jantar. Parei para pensar numa coincidência: a Maria tinha feito anos no dia anterior e eu, com todo o trabalho do costume, não tinha conseguido ir cantar-lhe os parabéns.
E com isto tudo ainda não tinha lido em que parte do país tinha acontecido este desaparecimento e quem tinha, realmente, desaparecido. Umas linhas mais abaixo lá estavam os nomes: João Almeida e Maria Ribeiro, naturais do Porto. Não, não podia ser verdade. Era a Maria uma das desaparecidas? O telemóvel tocou, demorei a encontrá-lo dentro da mala; era a Joana e a primeira coisa que disse foi “Já leste os jornais de hoje?”

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Pequenas histórias #5


Sabes quanto tempo passou desde a última vez? Lembro-me, tão bem, de cada segundo que passou depois da última noite em que te vi que podia jurar que estou acordada desde então; podia – mesmo – jurar que esta falta que me fazes me consome mais do que toda a nossa química quando estás por perto. Não sei, exactamente, como qualificar este vazio em que me deixas. Na verdade, queria eu não ter que sentir (nem dizer) que não há falta maior do que a que tu fazes na minha vida, que não há ninguém no mundo inteiro que me faça tanta falta como tu fazes. É como se não soubesse dizer, como se não soubesse traduzir em palavras – daquelas que se desenham entre os lábios e nos soam aos ouvidos – tudo aquilo que me fazes sentir quando não estás aqui. Seria tão mais fácil se não tivesse que dizer nada, se entendesses os olhares, os gestos e até os silêncios que não pareço dizer, mas que são como as palavras mais difíceis de sentir entre os lábios.
No entanto, gostava de dizer – para que soubesses – que nem sempre são rosas o que sentes em acasos perdidos; que nem sempre são rosas os olhares de cortar a respiração que se transformam em noites de amor. É nesses momentos que percebo quase tudo o que me deixa presa e raras vezes me deixa avançar; vejo, claramente, que nunca te deixo ir embora de vez, que te guardo para te poder abraçar sempre que alguém quer ocupar o teu lugar e eu sinto que não é igual a ter-te a ti junto a mim.
E é por saber que continuas (sempre) à distância de um abraço que não suporto a ideia de estar aqui, de me negar ao que mais quero: sentir-te comigo.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pequenas histórias #4


Se não fosse a tua ausência permanente e irremediável, muito provavelmente nunca te agradeceria como sempre mereceste. Mas é sempre assim, não é? Só nos lembramos – verdadeiramente – das pessoas que nos fazem falta quando elas teimam em desaparecer. E depois é tão tarde para agradecer tudo, de uma só vez, que não é fácil saber por onde começar. Por isso, vou começar e acabar no mais importante: tu.
Acima de tudo, gostava de te agradecer por teres feito parte da minha vida e me teres ensinado tantas lições – as maiores quando já estavas tão longe. Por, de tantas formas, teres feito de mim o que sou hoje: em mim estarás sempre vivo. É, também, por isso que hoje sei que as tuas borboletas nunca morrerão dentro do meu estômago; obrigada por não as teres levado contigo. Na verdade, o que quero mesmo é agradecer-te por as teres deixado comigo no nosso primeiro encontro, durante o nosso primeiro beijo; e quero dizer-te mil vezes obrigada por me teres permitido descobrir o que era estar – estupidamente – apaixonada. Por me teres ensinado, mesmo sem saberes, que quando amamos alguém o nosso coração descai, ligeiramente, para baixo e mergulha numa piscina de borboletas inquietas; e por me teres permitido descobrir que essas borboletas são muito mais do que a metáfora da qual nasceram.

Nota: Hoje é o dia da publicação nº 100 :)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Pequenas histórias #3


Procurava sempre a face dela da mesma maneira: com os dedos das mãos bem esticados, enquanto sorria a antecipar o que já sabia sentir. Ao primeiro toque desenhava-lhe o rosto como ninguém; conhecia, melhor do que ela própria, cada pedaço de pele que a fazia tão bonita.
Sabia de cor a forma dos seus olhos – o direito era ligeiramente mais rasgado –, o tamanho do seu pequeno nariz – que lhe cabia no dedo mindinho –, o formato das suas sobrancelhas fartas – que lhe conferiam tanta personalidade – e o diâmetro dos seus lábios desenhados, milimetricamente, no sítio certo – nem um bocadinho para a esquerda, nem ligeiramente para a direita.
Depois do primeiro toque, muitas descargas eléctricas percorriam o corpo dele com uma intensidade difícil de descrever: ela estava-lhe à flor da pele e ainda só lhe tinha tocado com a ponta dos dedos. E enquanto ela falava – e ela falava sempre – todos os sons pareciam estar em sintonia. Talvez a pudesse reconhecer em qualquer parte do mundo e no meio de uma multidão. Era a única certeza que tinha: se não lhe pudesse tocar, bastava que ela falasse para se verem.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pequenas histórias #1


Estou a escrever-te outra vez. Demorei alguns minutos até escrever a primeira frase; confesso que foi difícil – primeiro – controlar um sorriso e – depois – uma gargalhada. Ainda estou a tentar parar este riso, que só aparece quando não deve, porque nada disto tem graça.
Deixaste-me, aqui, sozinha na única vez que te pedi para ficares. Não te estou a condenar, porque a verdade é que, até hoje, te abandonei sempre que pude. E, por mais que me custe, sei que o irei fazer mais vezes. Não consigo, mesmo quando quero, ficar quando estás ao meu lado; quando estás só comigo e me queres inteira só para ti. Quando te conheci pensei que fossemos como ímanes, sabes? Pensei que a tua proximidade seria, por consequência, a minha proximidade também. Acreditei que desta vez seria capaz de ser inteira contigo; mas talvez me tenha esquecido de uma coisa: entregar-me sem reservas. Porque a verdade é que se uma parte de mim quer, finalmente, deixar de resistir, a outra só consegue procurar a saída mais próxima.
E agora, estou eu aqui – sentada na minha cama (que tantas vezes foi nossa) – a pedir-te para voltares. Só eu para cair, repetidamente, nestas contradições e achar graça a esta ironia. Sim, ainda não consegui parar este (maldito) riso.
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