segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quando eu tentava escrever contos.


Não era a primeira vez, e provavelmente não seria a última, que eu chegava a casa e te via sentado no sofá, a delirar o álcool que te corria nas veias, como se para ti o mundo não passasse das tuas garrafas de vodka, que escondias, quase com carinho, debaixo da nossa cama. Debaixo da cama onde fazíamos amor, onde dormíamos abraçados, antes do álcool te corromper o corpo, e pior do que isso, a alma.
A partir do momento em que te deixei entrar na minha vida e te trouxe para minha casa, soube que a nossa vida não seria um mar de rosas, que a nossa relação não ia ser ”um para sempre” bonito dos filmes, nem um ” por enquanto” miserável e precário da vida real. Soube-te perdido desde o primeiro segundo, soube-te perdido desde a primeira noite, em que adormeceste tu, abraçado a mim, como uma criança, que dorme na cama dos pais porque tem medo do escuro. Soube-me perdida, também, de amores pela tua fragilidade, pela tua dependência que me inspirava um instinto maternal, que eu julgava não existir dentro de mim. Percebi que era demasiado forte para te deixar ir embora, para te deixar sozinho, quando precisavas tanto de alguém. E assim foi. Foste ficando e ficando, até que trouxeste todas as tuas tralhas e passamos a dizer “a nossa casa” em vez de “a minha casa”.
Ainda me lembro da primeira vez em que te encontrei mergulhado nesse sofá, a sofrer a tristeza que o álcool (também) consegue trazer. Para além da pena que senti, lembro-me de te ter despido e de te ter posto debaixo do chuveiro, de teres chorado e de me teres pedido desculpa. Lembro-me de ter chorado também, muito, de me ter desfeito das garrafas que deixaste espalhadas pela casa e de ter prometido a mim mesma que seria a primeira e a última vez que uma situação dessas acontecia contigo. Nesse dia, percebi que me estavas a fugir por entre os dedos desde o início, que nunca tinhas estado só comigo, e que o álcool era o teu porto de abrigo mais próximo.
Dream cate

3 comentários :

  1. Os vícios de quem nos é tanto não os consomem só a eles, a nós também. E por gostarmos de mais não somos capazes de virar as costas. Permanecemos ali, dando o nosso melhor, para os libertar dessas amarras.
    Adorei!

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    Respostas
    1. Obrigada Andreia! :) espero que continues a passar por cá!

      Beijinhos

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  2. Texto muito bem escrito e que fala sobre uma realidade cada vez mais presente na vida de tantos casais... Continua o bom trabalho e não deixes de escrever nunca
    Beijinhos

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